Memórias

Teresa Tito de Morais, que dirige o Conselho Português para os Refugiados (CPR) desde 1991, foi a conferencista de Julho convidada pelo Círculo Cultura e Democracia. Durante quarenta minutos, contextualizou os grandes movimentos migratórios dos dias de hoje, abordou o trabalho específico desenvolvido pelo CPR e sublinhou o impacto devastador que as campanhas de desinformação, em particular nas redes sociais, têm tido junto da opinião pública.

A questão dos refugiados entrou no nosso consciente público no Verão de 2015, com as grandes movimentações de pessoas oriundas da Síria e do Iraque em direcção à Europa via Turquia. Na altura, o governo alemão tomou a liderança no seu acolhimento e vários foram os Estados membros que lhe seguiram o exemplo, incluindo Portugal. Desde então, o tema das migrações, e, em particular, o acolhimento dado aos refugiados tornaram-se questões decisivas nas eleições legislativas de vários países europeus, dando acesso ao poder a partidos populistas até recentemente nas margens do panorama político. 

Teresa Tito de Morais começou por contextualizar as grandes deslocações forçadas de população a nível mundial - 68,5 milhões, dos quais 25,8 milhões são refugiados -, tornando claro que a pressão sentida na Europa não só é uma reduzidíssima percentagem deste valor, como tem estado a diminuir desde 2015. Dividiu os refugiados acolhidos em Portugal entre os que chegam directamente e aqueles que vêm ter a Portugal vindos de países de ‘transito’ e/ou de triagem. 

Sublinhou a importância da circulação da informação correcta de números e factos e do esforço constante de combater as campanhas de desinformação que facilmente proliferam nas redes sociais. Temas como o contributo económico dos migrantes, que ultrapassa largamente o seu peso financeiro sobre os estados que os acolhem, e a sua contribuição para o progresso social e tecnológico são facilmente relegados para segundo plano, e narrativas sobre o suposto impacto negativo da sua existência na qualidade de vida dos nacionais, nomeadamente nas áreas da segurança e economia, ganham primazia nestas plataformas. Esta questão da desinformação e da importância das redes sociais em veicular informação não confirmada ou falsa mereceu interesse da audiência, tendo sido debatida por vários participantes. 

Relembrou, aliás, a experiência portuguesa no acolhimento de 500.000 pessoas na sequência da descolonização, num período que marcou o inicio do desenvolvimento económico do país, e, na década de 1990, de cerca de 1300 kosovares refugiados da guerra. Relativamente à integração em Portugal, considerou que este é um pais acolhedor, cuja língua e condição periférica relativamente às grandes comunidades de refugiados europeus no norte da europa dificulta por vezes a integração. As dificuldades do CPR residem precisamente no emparelhamento de refugiados e de autarquias que os possam acolher, tendo em conta o contexto sócio-economico de origem dos diferentes refugiados. Sublinhou que a habitação era o problema mais difícil de resolver, já que a Grande Lisboa está a braços com uma crise de habitação e consequente subida de preços de arrendamento que o CPR não tem meios para acompanhar. 

Relativamente ao futuro, mostra-se apreensiva, na sequência da ultima cimeira da União Europeia, em que as divisões europeias ficaram sedimentadas. Em Portugal, lamentou a impossibilidade de desenvolver parcerias de acolhimento com mais autarquias, incluindo Arouca, mas manifestou esperança que a situação se pudesse alterar. 

Teresa Tito de Morais concluiu a sua palestra lembrando a sua experiência enquanto refugiada política, tendo sido presa pela PIDE durante o Estado Novo. Exprimiu a sua gratidão à Suíça que acolheu a sua família e lhe permitiu concluir os estudos e crescer intelectualmente: ‘Se eu não tivesse tido essa oportunidade, o que teria sido de mim?’, disse.

Inês Fialho Brandão