Portugal na Europa, reforçando as ligações com África e o Atlântico, defendeu Seixas da Costa




Por iniciativa do Circulo Cultura e Democracia e no quadro das “Conferências de Arouca”, realizou-se no passado dia 19 de Novembro, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários, uma conferência subordinada ao tema “Portugal, a Europa e o Mundo”. Foi orador convidado o Embaixador Francisco Seixas da Costa, diplomata prestigiado que, entre outras funções de representação externa do Estado, foi Embaixador Permanente junto das Nações Unidas, em Nova Iorque, e Embaixador de Portugal em Brasília; integrou ainda o Governo de António Guterres, enquanto Secretário de Estado para os Assuntos Europeus.

Seixas da Costa defendeu que Portugal encontra na União Europeia o suporte preferencial para a defesa dos seus interesses estratégicos, ainda que a crise actual do projecto europeu possa desaguar em novas configurações das suas políticas centrais – v.g. Acordo Schengen e moeda única. Nesse caso, Portugal correria o risco de deixar de integrar a linha da frente dos Estados-Membros da Eurozona, reservado, então, para quem pudesse cumprir mais exigentes critérios. Afastada está, por falta de condições, qualquer veleidade de um desenho federalista para a Europa defendido por alguns sectores de opinião.

O “Brexit” – considerou Seixas da Costa – representa uma ameaça de desmembramento da União Europeia, indicativa da crise global que esta atravessa. O seu processo constitui verdadeira incógnita, mas haverá que prevenir que o Reino Unido não possa arrecadar o melhor dos dois mundos – o que constituiria um incentivo a que outros Estados-Membros seguissem a via aberta pelo “Brexit”. A saída do Reino Unido não só deixa a UE mais enfraquecida, como afecta os equilíbrios internos reforçando a Alemanha na sua liderança. A crise europeia – recordou – também se manifesta na deriva nacionalista de alguns Estados-Membros, por vezes associada a nacionalismos xenófobos. Partidos e movimentos anti-sistema têm vindo a crescer na Hungria, Áustria, Polónia, Finlândia e outros, aproveitando o descontentamento de quem se sente ameaçado pela vaga terrorista, afluxo de refugiados e por uma economia que não cresce.

A eleição de Donald Trump, a realizarem-se algumas das suas promessas, poderá provocar um volte-face de sérias consequências para a Europa, quer em matéria de política económica (comercial) – acentuadamente proteccionista – quer em sede de política externa, com o anunciado desinvestimento com as despesas militares no teatro europeu. A economia europeia seria profundamente afectada por uma guerra comercial com os EUA, seu principal cliente. E Portugal padeceria, em especial, com uma subida das taxas de juro americanas que, em cadeia, acabaria por arrastar o nosso serviço de dívida para níveis incomportáveis. Seixas da Costa previu, no entanto, que acabará por prevalecer a defesa dos interesses estratégicos americanos próprios do primeiro dos “global players”, em detrimento de uma política acentuadamente isolacionista e caseira. E que, dentro de dois anos, os Estados Unidos de Trump e a Federação Russa de Putin acabarão por manter viva a tensão política e militar com que hoje se afrontam, seja na Síria, seja na fronteira oriental da Europa.

Além da prioridade europeia – acrescentou – Portugal deverá valorizar a opção africana e atlântica, a qual poderá representar significativa mais-valia, em tempos de crise na União Europeia. Nesse domínio, alertou para a necessidade de promover a ocupação efectiva da extensa zona económica exclusiva portuguesa, sem o que os nossos apetecíveis recursos marítimos serão disputados por outros.

O Embaixador Seixas da Costa respondeu ainda a inúmeras questões suscitadas pelos membros da assistência que, pelo interesse e actualidade do tema da conferência, acorreram ao evento.
Joaquim Soares dos Reis Brandão

Fotos da Conferência  Vídeo da Conferência

Referências nos Media:
Seixas da Costa em Arouca: "Vivemos no fio da navalha" (Roda Viva jornal online)
"Portugal deve continuar a ser integracionista" (Diário de Aveiro)