Memórias

No dia 1 de novembro, na Biblioteca Municipal de Arouca, e apesar da chuva torrencial, cerca de 35 pessoas, mulheres e homens, reuniram-se à volta do tema “Ser-se mulher - Velhos e novos desafios”. Com esta iniciativa, o Círculo Cultura e Democracia retomava as suas atividades depois das férias.
 
Neste serão, deram o seu contributo Fernanda Mendes, médica psiquiatra, natural de Canelas, e Olga Rodrigues, natural de Adaúfe, Moldes, professora na Escola Secundária de Arouca. Um impedimento de última hora privou-nos da presença de uma outra convidada, Manuela Tavares.
Ser-se mulher, velhos e novos desafios
Fernanda Mendes e Olga Rodrigues

A partir da situação das mulheres nas últimas décadas, procurou-se refletir e partilhar opiniões sobre os desafios que lhes foram e ainda lhes são colocados para que possam desenvolver o seu potencial ao nível pessoal, profissional e cívico.

Fernanda Mendes começou a relembrar como foi o caminho até agora. Desde sempre, as mulheres foram consideradas como seres “subsidiários” dos homens, tal como podemos verificar tanto na Bíblia, Livro do Genesis, onde a mulher nasce da costela de Adão, como em Aristóteles, para quem ela é tida como um ser imperfeito, enquanto S. Tomás de Aquino a considera igual ao homem, mas apenas no céu, pois só na alma é semelhante ao homem. Também a moral judaico-cristã, ao difundir o modelo da família e da sociedade patriarcais, teve grande impacto, reservando à mulher o papel de procriação e subalternização ao homem, sendo socialmente aceite uma dupla moral sexual - moral do homem e moral da mulher.

Estes modelos transmitiram-se de geração em geração através da educação das crianças até que, em fins dos séculos XIX e XX e no âmbito de outros combates semelhantes para uma vida mais digna, surgem os movimentos feministas que conglomeram a contestação e a luta das mulheres pelos seus direitos, cívicos, laborais e políticos.

Outros fatores intervieram ainda para a mudança de paradigma em Portugal. A emigração, com um papel fundamental na abertura de horizontes, na criação de riqueza e no assumir pelas mulheres de novas responsabilidades normalmente reservadas aos homens. No âmbito da vida privada, o aparecimento da pílula contracetiva, permitindo à mulher ser “dona” do seu corpo. As progressivas alterações na lei que culminaram depois do 25 de Abril ao consagrar na Constituição o reconhecimento da igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Verifica-se então uma mudança no poder de intervenção da mulher na sociedade: adquire o direito a eleger e ser eleita, acede ao ensino profissional e universitário e a profissões até então a elas vedadas.
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 Moderação a cargo de Colette Costa

E agora? Muito caminho foi feito mas muito haverá ainda a fazer. Foram mencionados vários obstáculos como o ainda grande peso da Igreja Católica na perpetuação do modelo patriarcal tradicional, apesar da importante abertura do Papa Francisco. A Igreja mantém uma estrutura hierárquica essencialmente masculina onde as mulheres não têm voz ativa na tomada de decisões, podendo ter um papel consultivo mas sem acesso ao sacerdócio.

No trabalho, para função igual, as mulheres têm salários inferiores aos dos homens apenas pelo facto de serem mulheres. O número de mulheres em cargos de chefia continua inferior ao dos homens embora, estatisticamente, tenham mais escolaridade e sejam em número mais elevado para a mesma função.

Na família, a participação masculina nos cuidados com as crianças bem como na vida do lar não é paritária. A partilha das tarefas é um conceito ainda longe de ser interiorizado tanto pelos homens, mesmo que ajudem pontualmente, como às vezes pelas próprias mulheres, que têm dificuldade em abdicar do seu domínio sobre a gestão da casa.

Na publicidade e nos media, a pressão sobre a mulher para que corresponda à imagem apresentada - mulher sempre bonita, boa mãe, boa esposa, boa profissional, acaba por impeli-la a comprar produtos e serviços supostamente benéficos para atingir o objetivo e sentir-se bem. E talvez, por não se sentirem bem realizadas, as mulheres compensam um certo vazio cedendo à tentação do consumismo, tornando-se, aliás tal como os homens que também sentem esta pressão, num apreciável nicho de mercado.
Ser-se Mulher. Velhos e novos desafios

O horário a cumprir não permitiu abordar outros temas, mas questões relevantes surgiram, nomeadamente:
  • o desencanto de algumas mulheres quanto à sua vida, a falta de solidariedade para com outras mulheres, inveja... Será isto consequências de frustrações pessoais ou sociais?
  • a pressão sobre cumprimento de objetivos e progresso na carreira bem como a imposição de total disponibilidade para o trabalho ao serviço da entidade patronal são motivos de falta de tempo para si próprios, que afetam mulheres e homens;
  • a tolerância da sociedade para frases desrespeitosas sobre a mulher, como as que surgem em espetáculos populares e de grande divulgação. Será esta uma consequência da diferença das naturezas feminina e masculina ou resquícios do velho modelo de inferiorização da mulher?
No entanto, apesar dos constrangimentos existentes, como conclusão desta conversa foi apontado um caminho:
- Cabe às mulheres continuar a contribuir para a alteração dos modelos antigos, já em curso, através da educação das crianças transmitindo-lhes os novos valores.

Mais alguns registos fotográficos, aqui.





Ciclo de Conversas Digitais

Destaques


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"Não haverá por aí ninguém que possa pôr ordem nisto”

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Videogravações das Jornadas da Floresta'17

Registo do último Serão do Círculo por alunos de Multimédia