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Decorreram, nos passados dias 24 e 25 de março, as primeiras Jornadas da Floresta, em Arouca, subordinadas ao tema “A Floresta e os Incêndios”, com organização do Círculo Cultura e Democracia e da Câmara Municipal.

Foram dois dias intensos de transmissão e troca de conhecimentos, sensibilização e capacitação, com contributos de alguns dos melhores especialistas nacionais na matéria e de protagonistas locais com grande empenhamento, que contaram com uma assistência atenta e interventiva.

Os slides usados nas apresentações, gentilmente cedidos pelos oradores que se serviram da tela de projeção, encontram-se disponíveis nesta secção. Evidentemente as intervenções orais foram mais longe do que aqui se reproduz e brevemente esperamos poder disponibilizar também os vídeos de todas as comunicações.
 
Na sessão de abertura, Marcelo Pinho, vereador da Câmara Municipal de Arouca, aproveitou para dar notícia de uma iniciativa da autarquia, que visa plantar árvores nativas nas faixas laterais à estrada entre Arouca e a Ponte de Alvarenga, um projeto que também envolve os proprietários e a Infraestruturas de Portugal. Manuel Brandão Alves, coordenador do Círculo Cultura e Democracia, referiu que refletir sobre a floresta é contribuir para o fortalecimento da democracia, assunto sobre o qual discorre neste artigo no blogue Circulando.

Os trabalhos do primeiro dia, dedicado à floresta, começaram com uma sessão de testemunhos de agentes locais, profissionais e/ou diletantes, com experiência de vida, e no terreno, ligada à floresta.
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Celso Portugal, atual Presidente dos Bombeiros Voluntários de Arouca, homem ligado à produção florestal há mais de 50 anos, incansável na defesa dos assuntos da floresta, deu início aos trabalhos com o lema “A riqueza da floresta: aspetos ecológicos, económicos e socioculturais”. Referindo-se de modo apaixonado àquilo que designou “a grande riqueza de Arouca”, aludiu à importância de “garantir a sua preservação, melhorar a sua produção e recuperar a sua componente ecológica e sócio cultural”, lembrando que os três aspetos não podem ser vistos separadamente e que “é urgente uma política de compromisso em que todos se sintam parceiros”.

Seguiu-se o recém-criado grupo de cidadãos Matéria-Prima - Movimento para a Reabilitação e Preservação da Serra da Freita. Ana Vieira e Jorge Amorim, dois dos co-fundadores deram-no a conhecer, como surgiu no contexto do combate às chamas em agosto de 2016, o projeto de intervenção que tem vindo a desenvolver no Baldio de Ameixieira, Currais e Cales e os objetivos estratégicos futuros; tudo isto com a inestimável colaboração dos voluntários que os acompanham, inspirando os presentes para o papel que a cidadania pode desempenhar.

Pedro Quarema, Engenheiro Florestal que desempenha funções técnicas na Associação Florestal Entre Douro e Vouga, conhecedor da realidade dos proprietários e produtores locais, afirmou, na sua comunicação intitulada “Aproveitamento integrado dos recursos florestais e desenvolvimento rural sustentável”, que a sustentabilidade da floresta passa pela rentabilização dos recursos associados e que obter rentabilidade equivale a incentivar os proprietários para o ordenamento e a gestão, enfatizando a relevância da certificação como uma ferramenta de valorização para o mercado, e de promoção dos valores ambientais, sociais e económicos.

Ricardo Sousa, com formação em Engenharia Florestal, deu-nos uma perspetiva da realidade industrial, enquanto administrador do grupo Forestcorte. Na sua comunicação “Exploração florestal e valorização energética” falou-nos da importância da utilização da biomassa para a produção energética e para a redução do risco de incêndios, do papel do investimento na floresta para inverter o êxodo rural, mas também das dificuldades que a indústria enfrenta e de soluções de investimento em infraestruturas florestais comuns que facilitariam e permitiriam criar confiança na fileira florestal local.

A sessão terminou com a nota de esperança que nos trouxe o título da comunicação do Movimento Gaio: “Semear vida na Serra da Freita”. Bernardo e Teresa Markowsky, fundadores do movimento, chamaram a atenção para o abandono e para algumas medidas que deveriam ser implementadas no terreno. Deram a conhecer o trabalho que a organização tem vindo a desenvolver nos últimos anos: educação ambiental, vigilância florestal, envolvimento da comunidade, ações de sementeira e repovoamento com espécies nativas. Mais uma vez foi salientado o trabalho em parceria e o apoio do voluntariado.
005Após um período de discussão alargada, João Santos Pereira, Professor Emérito do Instituto Superior de Agronomia, ISA, da Universidade de Lisboa, partiu dum diagnóstico da situação presente para antever “O futuro da floresta em Portugal”. Em virtude da incerteza quanto às mudanças no clima, da estrutura da “nova” floresta, etc., há possibilidade de cenários de alterações muito drásticos, destacando que “os grandes desafios do presente, nomeadamente os que resultam das alterações climáticas, impõem a continuidade do trabalho de investigação e põem a intervenção técnica num novo patamar de competências.”
 
Américo Mendes, Professor de Economia na Universidade Católica e Presidente da Associação Florestal do Vale do Sousa, falou sobre “A gestão partilhada da floresta”, enfatizando que Portugal é um dos países com maior percentagem de área florestal privada (98.4%, dos quais 5.1% Baldios), que se encontra muito fragmentada, criticando as políticas para o setor florestal que não têm tido esta realidade em devida conta. Defendeu mecanismos de internalização das externalidades positivas geradas pela floresta e o encaminhamento desse financiamento para o fomento de formas de gestão florestal agrupada, especialmente as que já estão iniciadas no terreno (organizações de produtores, ZIFs). Falou ainda nas deficiências do programa nacional de sapadores florestais, que carecem de correção célere.

Seguiu-se-lhe Victor Louro, Engenheiro Silvicultor com carreira profissional na extinta Direção Geral das Florestas, autor do livro “A Floresta em Portugal - Um apelo à inquietação cívica”, que, com uma perspetiva otimista, nos lembrou que as pessoas e as comunidades não são meros destinatários, são partes interessadas que podem e devem ter um papel transformador!

A jornalista Cláudia Oliveira fez a apresentação e moderação das sessões neste primeiro dia.

O dia 25, mais dedicado à problemática dos incêndios, começou com um painel de mais quatro intervenientes conhecedores da realidade local, apresentados por António Costa. Carlos Esteves, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Arouca ao longo de mais de 30 anos, deu-nos uma perspetiva sobre “A evolução das formas de combate aos incêndios em Arouca ao longo do tempo: o que se ganhou e o que se perdeu”. A sua resenha histórica foi deveras elucidativa; começou por descrever como era antes da existência de bombeiros, passou pela constituição do corpo de Bombeiros Voluntários, pela evolução e aumento dos recursos (humanos, viaturas, equipamento de combate e proteção, comunicações, meios aéreos) e pela crescente componente de formação dos Bombeiros. A estes fatores positivos contrapôs o declínio do auxílio das populações no combate e na vigilância pós-incêndios, entre outros.
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José Filipe Amorim de Pinho, atual 2.º Comandante daquele corpo de bombeiros, Engenheiro Florestal, fez um diagnóstico muito completo sobre os últimos grandes incêndios em Arouca (2005 e 2016), relacionando as condições meteorológicas, o relevo, a acumulação de combustíveis e a recorrência dos incêndios, referindo as dificuldades em mobilizar meios para o ataque inicial e as lacunas do sistema de gestão das operações, e ofereceu-nos pistas para tornar o combate mais eficaz: reduzir ignições, promover um ataque inicial musculado, infraestruração do território.

Adriano Soares Francisco, desde sempre ligado à floresta, é Presidente da Junta de Freguesia de Tropeço, e deu-nos a conhecer o sistema de prevenção e combate a incêndios naquela freguesia, envolvendo a população, meios privados e meios da junta, com uma rápida capacidade de mobilização e atuação. “Somos bombeiros sem farda”, sustentou.

Finalmente, Manuel Rainha, gestor do Perímetro Florestal da Serra da Freita pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, ICNF, referiu os eixos fundamentais Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios e alargou o tema para as opções de gestão de combustíveis em espaços de montanha. Neste Perímetro, “a definição de uma nova estratégia para aumentar a resiliência do território aos incêndios florestais, foi antecedida de uma análise e avaliação do risco. Foram desenhadas soluções (rede primária e mosaico de parcelas de gestão de combustível) para responder a dois tipos de cenários e tenta-se de uma forma dinâmica integrar o uso do fogo técnico (fogo controlado) com o uso do fogo tradicional.”
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A manhã terminou com a conferência de José Miguel Cardoso Pereira, Professor Catedrático do ISA, sobre os “Fogos rurais em Portugal: condicionantes ambientais e gestão do risco”, desmistificando a ideia, disseminada na opinião pública, da origem criminosa dos fogos, e alertando para a baixa perceção do risco. Salientou ainda que a concentração do investimento no combate, em detrimento da prevenção, é contraproducente a médio prazo. Concluiu que a solução passa por uma concertação política e técnica, com decisões corajosas baseadas na ciência, e com o apoio dos media.

Depois de almoço, Paulo Fernandes, Professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e investigador na área do fogo florestal, deu-nos uma conferência sobre “O fogo controlado em Portugal: oportunidades e constrangimentos”. O uso planeado do fogo, servindo, entre outros, como forma de gestão de combustíveis e redução do risco, apesar de razoavelmente bem aceite, ainda é pouco empregue em Portugal. As razões mais relevantes prendem-se com limitações do Serviço Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, nomeadamente recursos humanos, organização e integração. Falou-nos ainda das condições para aplicação desta modalidade e do investimento que tem havido em I&D e formação.
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Eugénio Sequeira, Engenheiro Agrónomo e Investigador aposentado, foi o último conferencista a intervir, detendo-se sobre “condições de um combate eficaz e eficiente”. Para acabar com os incêndios florestais e minimizar os seus efeitos referiu ser necessário: i. reduzir as ignições (pela educação, repressão, responsabilização); ii. alcançar um ordenamento correto, com descontinuidades, e uma boa gestão; iii. combate (vigilância, deteção precoce, atuação com base no ordenamento); iv. aplicação de medidas de minimização das consequências (combate à erosão, retenção de água, redução de risco de cheias a jusante).

Por fim, seguindo-se a um período de discussão moderado pelo jornalista José Carlos Silva, uma Mesa Redonda reuniu intervenientes de ambos os dias, que fizeram uma reflexão conjunta sobre o tema das Jornadas e partilharam perspetivas para o futuro. Foi unânime a opinião quanto à necessidade de mobilização coletiva e ficou bem patente complexidade do problema, a qual, contudo, não pode nem deve desencorajar a vontade de enfrentar a situação e de procurar e implementar as melhores soluções.
 
As Jornadas foram encerradas pelo Presidente da Câmara Municipal de Arouca, Artur Neves, e pelo coordenador do Círculo.
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Os slides utilizados nas apresentações dos diversos oradores podem ser consultados aqui.
Logo que possível também serão disponibilizados os registos vídeo das intervenções.

Fotos das Jornadas (fotografias de Sandra Gomes, CMA)

Referências nos Media:
Jornadas debateram o futuro da floresta de Arouca, Roda Viva
A Floresta e os Incêndios: primeiras jornadas da Floresta em Arouca, Discurso Directo